Costumo ver filmes que me deixam reflexivos de modo a gostar ou não do que vi, e hoje o sentimento que tive ao final do longa "O Testamento de Ann Lee" foi de algo meio que fora do eixo, pois não consegui enxergar um vértice religioso atual da seita cristã que é mostrada na tela, de algo tão diferente dos padrões, de gritarias, batidas no corpo, danças e canções, que por vezes lembra outros vértices, mas que existiu ao menos pela mente da roteirista lá nos anos 1700, um pouco na Grã-Bretanha, e depois efetivamente nos EUA, criando cidades e cultos, com uma pegada bem diferente e ousada, pois não é um filme de terror, nem efetivamente um drama musical, já que a essência em si traz essa densidade, mostrando os cultos com canções, mas todas as dinâmicas de um modo normal conversado e tudo dentro dos padrões. Ou seja, é daqueles filmes que você fica pensando na situação da época, no formato da religião em si, e como essa pegada era vista, pois a diretora soube entregar intensidade nos atos de uma forma tão marcante, que você sente a presença ali, não sendo um filme imponente na totalidade, mas que facilmente lembrarei dele por um tempo.
O longa acompanha a história da lenda que se tornou líder e fundadora do movimento Shaker, uma seita devocional que pregava a igualdade de gênero e social, além de seguidores que enxergavam Ann Lee como a Cristo feminino.
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O longa acompanha a história da lenda que se tornou líder e fundadora do movimento Shaker, uma seita devocional que pregava a igualdade de gênero e social, além de seguidores que enxergavam Ann Lee como a Cristo feminino.
É interessante que o filme anterior que diretora e roteirista Mona Fastvold apenas escreveu foi o sucesso "O Brutalista", então já mostrou conhecimento de pesquisa e sabe colocar grandeza aonde precisa, e aqui o movimento Shaker é conhecido mais por detalhes minuciosos como suas danças, canções fortes e até mesmo pela construção minimalista, com casas e ambientes com poucos móveis e detalhes, de modo que ela soube brincar com a essência da personagem, sem precisar focar apenas nela, dando muita voz a seu irmão que virou uma espécie de apóstolo pregando a ideologia em outras cidades do país e levando muitos para seu grupo, mostrou alguns apoiadores iniciais e claro os conflitos em meio as guerras pela independência dos EUA. Ou seja, conseguiu fazer um filme amplo de ideias e ideais, mas sem que precisasse abrir muito seu vértice, e dessa forma o resultado ficou incômodo para quem sentir um pouco mais da presença religiosa, e isso mostra um acerto por parte das escolhas da diretora.
Quanto das atuações, a primeira coisa que muitos pensaram é o motivo da não indicação de Amanda Seyfried à vários prêmios com sua Ann Lee, e a resposta vem bem rápido e já até disse um pouco acima, que foi a escolha da diretora do filme não ficar só em cima da protagonista, e valorizar por completo o movimento, pois a atriz entregou muita personalidade, foi coreograficamente perfeita que é algo que sempre fez muito bem, mas aqui a intensidade foi muito maior, e ainda teve grandiosas cenas com os partos, ou seja, se jogou por completo e foi muito bem. Outro que teve muitos bons momentos foi Lewis Pullman com seu William Lee, tendo intensidade cênica e muita emoção nos seus atos mais chamativos, sendo um parceiro completo para a protagonista e com dinâmicas marcantes em seus trejeitos. Particularmente não gosto muito de narrações, mas diria que Thomasin McKenzie foi bem tanto com sua Mary Partington, quanto contando a história da protagonista, de modo que vemos muito nas religiões Evangelho segundo fulano, segundo ciclano, e aqui tivemos o Testamento de Ann Lee segundo Mary Partington, pois ouvimos ela durante todo o longa, e foi bem intensa também nos momentos finais do longa. Christopher Abbott trabalhou seu Abraham Standerin com dinâmicas marcantes como marido da protagonista, tendo alguns atos fortes, e outros meio que soltos na trama, de modo que será mais lembrado pelas dinâmicas sexuais do que tudo, mas ao menos não foi falso com os sentimentos. Tivemos outros bons papeis na tela, mas para não me alongar tanto vou dar destaque apenas para David Cale com seu John Hocknell como um patrocinador do movimento que chegou a ser tocado na escolha do lugar para criar o ambiente perfeito para tudo, e os momentos iniciais de Stacy Martin e Scott Handy com seus Jane e James Wardley que deram o tom para que a personagem seguisse.
Visualmente o longa é bem interessante, mostrando as vestimentas clássicas do século XVIII que tanto estamos acostumados a ver nos filmes que tem vilas, vemos a construção praticamente de uma cidade pelos participantes do movimento, vemos antes na Grã-Bretanha casas mais isoladas aonde aconteciam os cultos com toda a gritaria e movimentos, vemos muitos atos de partos da protagonista, cadeias, e claro um EUA ainda pronto para ser descampado precisando de guias caçadores contra os povos originais dali, tudo com muita representação minuciosa, sem ter grandes monumentos ou elos, para mostrar bem o sintetismo escolhido para a trama.
Enfim, mesmo tendo muitas canções não classificaria o longa como um musical, pois as canções são ritos dos cultos, então nas dinâmicas em geral temos muitos diálogos, e o mais engraçado de tudo é que mesmo com a duração de 137 minutos, o filme não tem barrigas que cansem o público, sendo intenso e bem marcante de um modo geral, valendo a conferida para conhecer um pouco mais desse mundo da época, que hoje ainda existe em pouquíssimos lugares, mas que chegou a ser até bem grande. E é isso meus amigos, fico por aqui hoje, mas volto amanhã com mais dicas, então abraços e até logo mais.


































